sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


A gaivota que não queria ser – António Torrado

A GAIVOTA QUE NÃO QUERIA SER
Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa.
— Levam cartas, mensagens, avisos de um lado para o outro — explicava ela às outras gaivotas. — São as pombas ou os pombos-correios.
— Também há quem as cozinhe com ervilhas — interrompeu-a uma gaivota trocista.
— Essa serventia a nós não nos interessa — arrepiaram-se as outras gaivotas, que voaram, alarmadas.
Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. Servir de cozinhado também não estava nas suas ambições, mas à falta de outro préstimo… E pensou: “Gaivota estufada”, “Gaivota de cabidela”, “Gaivota guisada com batatas”…
Realmente, não lhe soava bem. E menos bem devia saber, porque nunca lhe constara que os humanos, de boca aberta para todos os gostos, tivessem incluído tais receitas nos seus livros de cozinha.
A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar.
As outras gaivotas, que há pouco tinham debandado, regressavam à praia, apanhadas pelo mesmo entorpecimento que atingira a gaivota desta história.
Formaram um bando tiritante, rente ao mar. Umas, levantadas numa só pata, outras escondidas numa cova da areia, olhavam as águas esverdinhadas, espumosas, como turistas descontentes com a paisagem.
— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o ar.
De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.
“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.

António Torrado
adaptado
A casa feita de sonho 
Leve como uma pluma,
alta como uma torre,
quente como um ninho
e doce como o mel,
assim imaginei
desde pequeno
a minha casa…
Mais tarde, quando me encontrei só no mundo, como não tinha dinheiro, resolvi construí-la com as próprias mãos. Fiz primeiro a minha casa de papel, que é um material barato.
E assim que ficou pronta, vieram todos os ventos da Terra e levaram a minha casa de papel, leve como uma pluma…
Fiquei sem casa, mas não desisti. E fiz a minha casa à beira-mar, com areia da praia, que é um material barato.
Mal estava pronta, vieram todas as marés do mundo e levaram a minha casa de areia, alta como uma torre…
Deu-me vontade de desistir, mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia abandonar o meu sonho.
E resolvi fazer a minha casa de madeira, que é um material barato. Cortei-a dos bosques, com as próprias mãos! Ficou linda!… Escondida entre a folhagem…
Mas ainda mal a tinha acabado, vieram todos os fogos do céu e queimaram a minha casa de madeira, quente como um ninho… Chorei sobre as cinzas, como se chora uma pessoa querida que morreu.
Mas, mesmo assim, não desisti. E resolvi fazer a minha casa de açúcar…
Mas o açúcar não é um material barato! Pois não…
Mas eu precisava de uma casa, e sobretudo, não podia abandonar o meu sonho.
Trabalhei, lutei, passei fome, para juntar o açúcar suficiente…
E quando a minha casa estava pronta — eram de açúcar as paredes, o chão, o tecto, os móveis, as portas e as janelas — vieram todos os bichos da Terra e devoraram a minha casa de açúcar, doce como o mel…
Fiquei sem casa. E desisti de construí-la com as próprias mãos…
Perguntam-me onde moro… Onde moro eu? Sei lá!… Vou pelo mundo, aqui, além, no bosque, à beira-mar… Perguntam-me se não tenho casa… Tenho, sim! Eu podia lá abandonar o meu sonho!…
Resolvi imaginá-la. Num sítio onde não chega o vento, nem o mar, nem o fogo, nem os bichos da Terra.
Fiz a minha casa com o meu próprio sonho. Ficou linda!
Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel…
Ricardo Alberty
A casa feita de sonho
Melhoramentos de Portugal, 1991

terça-feira, 25 de outubro de 2016




A coragem de ter medo



CapaLivroPág.Crianças22Out (p.43)
Começa-se pelo medo do de
CapaLivroPág.Crianças22Out (p.43)sconhecido, entra-se pelo escuro, passa-se pela tempestade, pelo silêncio, pelas alturas, pela dor ou pela diferença. Mas há outros medos explorados neste primeiro livro infantil ilustrado de Rodrigo Abril de Abreu. Estão lá os receios de alguns de nós já adultos e das crianças também.
O livro organiza-se em diálogo, onde à assunção de um medo se segue uma frase que o suaviza e oferece uma nova possibilidade a partir dele. “Tenho medo do desconhecido”, dirá alguém. “O desconhecido é um mundo por explorar”, responderá outro alguém (ou o próprio, se reflectir sobre o que o inquieta). “Tenho medo do escuro.” Resposta: “Aí nascem as estrelas.” Ou ainda: “Tenho medo de tempestades.” Reflexão: “Revelam o teu porto de abrigo.”
O autor, formado em Engenharia Física e doutorado em Neurociências pela Fundação Champalimaud, disse ao PÚBLICO que não pretende “dar lições”, mas tão-só “levar as pessoas a olharem o medo de outra maneira”. Diz ser fascinado por comportamentos sociais e emoções e pensa que muita gente “tem medo de livros sobre o medo”. Revela ainda: “Aqui estão os meus medos e a forma como os vejo.”
Autodidacta, 39 anos, criou este livro durante uma formação no atelier/casa de Nic e Inês: Livro Ilustrado — Do Mundo Manual ao Processo Digital. “Não tinha pensado em editá-lo, mas os meus formadores sugeriram-me e incentivaram-me”, conta. Enviou a obra para algumas editoras e a resposta positiva da Editorial Presença foi a mais rápida. O livro foi publicado.
Processo de trabalho_n
Para as ilustrações, usou canetas, aguarelas e recortes. Contou ainda com a ajuda do irmão, um pouco mais novo, João Abril de Abreu, que fotografou as ilustrações com as sombras das mãos do autor, que percorrem todo o livro, numa espécie de entidade protectora.
O resultado é um livro envolvente, que não assusta, antes desafia a olhar os medos de uma perspectiva encorajadora e feliz, tanto quanto possível. O autor volta a sublinhar que esta é uma versão possível de se lidar com os medos. Certo de que haverá muitas outras. “Esta é a minha. É assim que eu vejo os medos.”
Durante o doutoramento, Rodrigo Abril de Abreu desenvolveu projectos de comunicação e educação de ciência e explorou música, teatro, desenho e ilustração. No seu perfil de Facebook, diz-se “empenhado em intersectar arte, ciência e comunicação, esperando encontrar novas formas de melhorar o pensamento crítico, consciência social e os comportamentos pró-sociais na sociedade”. Parece estar no caminho certo.
Processo2_n
Voltando ao livro: “Tenho medo de ser pequeno.” “Só precisas de um coração grande.” E também: “Tenho medo de ser diferente.” “Ser diferente é ser como toda a gente.”
Até os mais receosos da inevitável chegada do fim ficarão a saber que este pode ser encarado como “um novo começo”. Temos mais coragem do que sabemos.
Medo do Quê?
Texto e ilustração: 
Rodrigo Abril de Abreu 

Fotografia: João Abril de Abreu
Edição Editorial Presença
40 págs., 10,50€
in: http://blogues.publico.pt/letrapequena/

O ladrão de bolachas

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Um dia, uma senhora teve de ficar à espera num aeroporto porque o voo tinha algumas horas de atraso. Foi a uma das lojas à procura de um livro, e comprou também um saquinho de bolachas. Depois, sentou-se a ler.
Apesar de estar envolvida na leitura, apercebeu-se de que o homem sentado ao seu lado, atrevido até mais não, tinha tirado uma ou duas bolachas do saquinho que estava pousado entre os dois. Mas, para evitar uma cena lastimável, decidiu fazer vista grossa.
Entretanto, enquanto a senhora continuava a ler, comia bolachas e vigiava a partida dos aviões, o “ladrão de bolachas” ia devorando as suas provisões… Mas, à medida que o tempo passava, ela ficava cada vez mais irritada e pensava: “Se eu não fosse como sou, pregava-lhe uma bofetada.” Cada vez que ela pegava numa bolacha, o homem, desavergonhado, servia-se também! Quando já só sobrava uma, ela interrogou-se sobre qual iria ser a reação dele.
Com um ar satisfeito, e um pequeno sorriso algo nervoso, ele pegou na última bolacha e partiu-a a meio. E, enquanto comia uma metade, ofereceu-lhe a outra. Tirando-lha da mão, a senhora pensou com os seus botões: “Não acredito! Este homem é mesmo atrevido e mal‑educado. Nem sequer me agradece!”
Não se lembrava de alguma vez ter ficado tão enfurecida! Por isso, quando o seu voo foi anunciado, suspirou de alívio. Juntou os seus pertences e pôs-se a caminho do avião sem sequer olhar para o ingrato ladrão.
Já a bordo e confortavelmente instalada, procurou o livro que estava quase a acabar de ler. Foi então que, ao remexer no saco, ficou boquiaberta. As suas bolachas continuavam ali, debaixo dos seus olhos espantados. “Se as minhas bolachas estão aqui”, pensou, desesperada, “então, as outras eram dele e ele aceitou partilhá-las!”
Tarde demais para pedir desculpa. Muito triste e arrependida, compreendeu então que a mal-educada, a ingrata e a “ladra” tinha sido ela!
Valerie Cox
in: contadoresdestorias.wordpress.com



A coragem de ter medo


CapaLivroPág.Crianças22Out (p.43)
Começa-se pelo medo do desconhecido, entra-se pelo escuro, passa-se pela tempestade, pelo silêncio, pelas alturas, pela dor ou pela diferença. Mas há outros medos explorados neste primeiro livro infantil ilustrado de Rodrigo Abril de Abreu. Estão lá os receios de alguns de nós já adultos e das crianças também.
O livro organiza-se em diálogo, onde à assunção de um medo se segue uma frase que o suaviza e oferece uma nova possibilidade a partir dele. “Tenho medo do desconhecido”, dirá alguém. “O desconhecido é um mundo por explorar”, responderá outro alguém (ou o próprio, se reflectir sobre o que o inquieta). “Tenho medo do escuro.” Resposta: “Aí nascem as estrelas.” Ou ainda: “Tenho medo de tempestades.” Reflexão: “Revelam o teu porto de abrigo.”
O autor, formado em Engenharia Física e doutorado em Neurociências pela Fundação Champalimaud, disse ao PÚBLICO que não pretende “dar lições”, mas tão-só “levar as pessoas a olharem o medo de outra maneira”. Diz ser fascinado por comportamentos sociais e emoções e pensa que muita gente “tem medo de livros sobre o medo”. Revela ainda: “Aqui estão os meus medos e a forma como os vejo.”
Autodidacta, 39 anos, criou este livro durante uma formação no atelier/casa de Nic e Inês: Livro Ilustrado — Do Mundo Manual ao Processo Digital. “Não tinha pensado em editá-lo, mas os meus formadores sugeriram-me e incentivaram-me”, conta. Enviou a obra para algumas editoras e a resposta positiva da Editorial Presença foi a mais rápida. O livro foi publicado.
Processo de trabalho_n
Para as ilustrações, usou canetas, aguarelas e recortes. Contou ainda com a ajuda do irmão, um pouco mais novo, João Abril de Abreu, que fotografou as ilustrações com as sombras das mãos do autor, que percorrem todo o livro, numa espécie de entidade protectora.
O resultado é um livro envolvente, que não assusta, antes desafia a olhar os medos de uma perspectiva encorajadora e feliz, tanto quanto possível. O autor volta a sublinhar que esta é uma versão possível de se lidar com os medos. Certo de que haverá muitas outras. “Esta é a minha. É assim que eu vejo os medos.”
Durante o doutoramento, Rodrigo Abril de Abreu desenvolveu projectos de comunicação e educação de ciência e explorou música, teatro, desenho e ilustração. No seu perfil de Facebook, diz-se “empenhado em intersectar arte, ciência e comunicação, esperando encontrar novas formas de melhorar o pensamento crítico, consciência social e os comportamentos pró-sociais na sociedade”. Parece estar no caminho certo.
Processo2_n
Voltando ao livro: “Tenho medo de ser pequeno.” “Só precisas de um coração grande.” E também: “Tenho medo de ser diferente.” “Ser diferente é ser como toda a gente.”
Até os mais receosos da inevitável chegada do fim ficarão a saber que este pode ser encarado como “um novo começo”. Temos mais coragem do que sabemos.
Medo do Quê?
Texto e ilustração: 
Rodrigo Abril de Abreu 

Fotografia: João Abril de Abreu
Edição Editorial Presença
40 págs., 10,50€
(Texto divulgado na edição do Público de 22 de Outubro, na página Crianças. Retirado de: http://blogues.publico.pt/letrapequena/)

Acredita


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Era uma vez uma senhora que tinha três cães. Um era já velhote. Outro, assim assim. O terceiro era um cachorro ladino, que nunca estava quieto.
Os três da mesma raça. Não me perguntem qual, porque nisso de marcas de cães e raças de automóveis – perdão! – de raças de cães e marcas de automóveis sou muito ignorante.
O cão velho, deitado no capacho da entrada, vendo o mais novo a correr atrás de uma aranha, de uma borboleta, até da própria sombra, comentava para o cão do meio:
– Também já fui assim.
– Não acredito – latia o cachorrinho, sem deixar de correr. – Tu nunca brincaste.
– Brinquei, podes estar certo. E, às vezes, ainda me apetece. Se não me sentisse tão pesado, ainda te apanhava.
– Não acredito – insistia o cachorrinho, de riso nos dentes muito brancos.
– Mas deves acreditar – aconselhou o cão do meio. – Nós que somos mais velhos, já fomos tão ligeiros como tu.
– Não acredito – teimava o cachorrinho, sempre a correr.
– Como é que havemos de convencê-lo que já passámos pela idade dele e que ele há de chegar à nossa? – perguntou o cão do meio ao cão mais velho.
– Vai ser difícil – concluiu o cão velhote, sem se despegar do capacho.
A senhora, dona dos três cães, que toda esta conversa ouvira ou adivinhara, trouxe um álbum de fotografias, poisou o cachorrinho no colo e mostrou-lhe:
– Este é o retrato do velho Piloto, quando ainda só comia sopinhas de leite. A fotografia está tremida, porque ele era um vivo demónio. Nunca se cansava de correr.
– Não acredito – protestava o cachorrinho, no colo da dona.
Páginas adiante, a senhora apontou outro cãozinho de grandes olhos brilhantes e orelhas espetadas:
– Este é o Xana, quando veio cá para casa, dentro de um cestinho. Era um brincalhão.
– Não acredito – esbraveja o cachorro, no colo da dona.
E sem querer saber de mais histórias antigas, o cãozinho soltou-se das mãos da dona e desatou a correr.
Não acreditava, não acreditava, não acreditava que aqueles dois canzarrões sisudos, muito dignamente sentados nas patas traseiras, já tivessem sido como ele. Era mentira. Era impossível. Era um disparate. Não acreditava, pronto.
Mas, com o tempo, acabou por acreditar…
António Torrado

in contadoresdestorias.wordpress.com

sexta-feira, 7 de outubro de 2016


A Maior Flor do Mundo | José Saramago


E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?