segunda-feira, 4 de janeiro de 2016



As minhas férias


 



As minhas férias foram em casa dos meus avós. Todos os anos as minhas férias são lá. A casa dos meus avós é grande mas parece um bocadinho pequena. Tem umas escadas e uma cave e muito mais quartos que a nossa casa, mas tudo parece um bocadinho mais baixo e apertado. Uma vez caí das escadas e não me magoei nem nada. Mas isso foi quando eu só tinha cinco anos. Nessa altura eu não sabia escrever nem nada porque ainda estava na infantil e agora até subo dois degraus de cada vez e as pessoas dizem que eu sou muito mexido. O meu avô até me disse que eu era um super-herói. Disse assim: ah, és tu, Filipe! Achei que era um super-herói que nos tinha entrado em casa. O meu avô gosta muito de super-heróis ou pelo menos é o que eu acho porque ele está sempre a falar-me deles. À mesa, quando os outros crescidos começam a ter conversas diferentes assim mais sérias e isso, o meu avô fica calado que nem um rato, que é como diz a minha avó, e depois só diz uma coisa ou outra quando lhe apetece ou quando se lembra de uma história divertida e então dá gargalhadas muito altas, mas não altas como quando às vezes ralham alto connosco e sim altas de fazer uma espécie de cócegas na nossa boca e termos de rir também e também alto como ele. As pessoas crescidas normalmente são diferentes. As pessoas crescidas normalmente não se riem ou riem-se de coisas que não têm graça nenhuma, pelo menos eu não acho, e às vezes param mesmo de rir a meio do riso como se uma gargalhada fosse uma coisa feia ou um palavrão muito mau. As pessoas crescidas não são nada como o meu avô. O meu avô é assim mais redondo e às vezes até parece que vai tropeçar e tudo. Mesmo quando está calado ou a dormir na poltrona castanha o meu avô não é nada sério e, como eu costumo dizer, isso é muito positivo. As pessoas crescidas normalmente não são nada positivas. As pessoas crescidas normalmente são muito levantadas e direitas e fazem lembrar árvores daquelas que estão sempre num conjunto de árvores e são muito iguais às outras todas, como os eucaliptos por exemplo. Um dia o meu pai foi comigo à mata que é como nós chamamos a uma floresta que há lá ao pé da casa dos meus avós, para aí a uns 2 km ou 3 km, e mostrou-me o que eram eucaliptos. Disse assim: estás a ver, Filipe? Isto aqui são eucaliptos. Eucaliptos. Mas nessa altura eu era muito pequenino e tinha mais ou menos quatro anos e por isso ainda não sabia dizer eucaliptos. Dizia de uma maneira diferente e engraçada mas agora já não me lembro. já passou muito tempo porque isto foi quando eu ainda era um bebé. Aos seis anos é a idade em que se fica mais crescido e eu já estou quase a fazer sete por isso vou rebentar a escala e claro já não sou um bebé.

Quando começam as férias vamos de carro para casa dos meus avós. E quando as férias acabam vimos para nossa casa também de carro, é só fazer o caminho todo ao contrário, mas por acaso às vezes parece mesmo que é outra estrada e que não foi por ali que viemos e nessas alturas eu penso para onde é que estamos a ir? Os meus avós são os pais da minha mãe. Os pais do meu pai morreram antes de eu nascer ou então quando eu era tão pequeno que não me lembro das caras deles. Um tio meu também morreu há pouco tempo e eu lembro-me muito bem da cara dele. A minha mãe disse-me que ele tinha subido para o céu porque era uma pessoa boa e então eu perguntei à minha mãe o que é que acontecia às pessoas que não eram tão boas e a minha mãe disse-me que também iam para o céu e depois eu ganhei coragem e perguntei-lhe e o que é que acontece às más? E a minha mãe disse que todas iam para o céu e eu aprendi isso. Deve ser bom estar no céu e passar por cima dos automóveis, principalmente quando está muito trânsito e as pessoas já estão chateadas de estar ali. A minha avó diz: não se diz chateadas, diz-se aborrecidas. Está bem, Filipe? Está bem, avó. A minha avó quer sempre que eu coma mais e às vezes ri -se de coisas que eu digo sem ser para rir e eu fico contente e depois volto a dizer essas coisas mas normalmente à segunda vez a minha avó já se ri com menos vontade. A minha avó diz que eu sou muito engraçado. Outras vezes diz que eu sou esperto mas não caço ratos. A minha avó não gosta nada de ratos mas está sempre a falar neles. Na casa dos meus avós não me deixam entrar na cave quando põem veneno para os ratos em cima de folhas de jornal debaixo das mesas e dos armários porque têm medo que eu prove daquilo e me transforme num rato. Mas eu acho que é tudo uma maluquice porque eu nunca vi nenhum rato. Devia ser engraçado se eu um dia me transformasse num rato. Podia pregar sustos à minha mãe e ao meu pai e principalmente à minha avó. Só o meu avô é que de certezinha não se ia assustar. Ia olhar para mim, fazer-me uma festa no pêlo, porque se eu fosse um rato em vez de cabelo tinha pêlo, e depois dizia-me: ah, és tu, Filipe! Achei que era um ratito que nos tinha entrado em casa. O meu avô diz que vê mal e tem uns óculos e tudo mas é tudo a fingir porque ele vê melhor até do que todos da casa. Até vê coisas que mais ninguém viu, como por exemplo o super-herói que ele encontrou de noite na cozinha e que lhe contou que havia um menino chamado Filipe que estava a dormir e que ia ser também um super-herói quando crescesse e ao almoço o meu avô contou-me isto tudo e disse que o super-herói tinha uma capa dourada e que saiu a voar pela janela e eu fiquei contente e nem me importei de estar a chover e a minha mãe não me deixar ir lá para fora. O barulho da chuva faz sono e quando eu não estou com sono isso é mau, pelo menos eu não gosto nada. Mas nesse dia até foi bom, porque o meu avô contou-me muitas histórias e depois eu fiz desenhos por causa das histórias que ele me contou e de outras coisas que eu pensei e imaginei. O meu avô sabe mais histórias que eu sei lá o quê. A minha preferida é a da barata moderna. Eu vou contar: era uma vez uma barata que era uma barata moderna. Eu não sabia o que é que era moderna e o meu avô explicou-me que queria dizer que a barata andava de patins, mini-saia e óculos escuros e no fim de cada frase dizia sempre oh yeah, como se estivesse a cantar. Um belo dia a barata foi apanhada numa banheira por uma senhora humana que queria tomar um duche e não gostava nada de baratas. A senhora humana olhou para ela e disse: já para fora da minha banheira e da minha casa! Mas a barata, que como me contou o meu avô além de moderna era respondona, disse-lhe: não vou, esta casa é tanto minha como tua. E a banheira também! A barata fez uma voz grossa e a senhora humana ficou zangada com as sobrancelhas em zê e a bufar como um touro malvado e sem saber o que fazer e saiu da casa-de-banho e foi buscar ajuda. Voltou com um senhor humano que era o marido. O marido olhou para a barata moderna, tirou o sapato e disse: isto resolve-se já. Mas ao ver isto a mulher, que não gostava de baratas mas também era um bocadinho simpática, começou a gritar: não, não! Oh não! Não a vais matar! Não a vais matar! Vai-te embora! E o marido foi-se embora porque os gritos da mulher eram muito altos e muito fininhos. E no fim de contas a barata e a mulher passaram a dividir a banheira e passou o tempo e a mulher ficou um bocadinho mais moderna e a dizer oh yeah de vez em quando e a barata ficou muito agradecida por ela não ter deixado que o marido a matasse com a sola do sapato. O meu avô conta esta história e depois às vezes muda coisas e eu digo que não era assim e depois conto eu ao meu avô como é que é a história e então depois ele conta-me a história outra vez mas como deve ser e é muito engraçado e não é nada como as coisas que eu digo sem querer e que têm graça da primeira vez e da segunda já não.

Nas férias também vamos a outros lugares, como por exemplo à vila. Na vila há uma praça principal sem nada de especial e lá há um café onde vamos sempre comprar pão-de-ló e outras coisas, como biscoitos e bolos-de-arroz, e eu para mim peço guarda-chuvas ou cigarros de chocolate. Gosto mais dos guarda-chuvas porque são maiores e têm mais chocolate mas os cigarros dão mais estilo. Às vezes chove na vila. Saímos de casa e o céu está cinzento e branco mas está tudo seco e eu já sei que quando chegarmos à vila vai começar a chover porque é sempre assim. Acho que é porque o chão da vila é feito de pedras grandes e a chuva faz lá um barulho a cair que parece mesmo feito para ser assim. A chuva é quando uma nuvem choca com outra, que eu uma vez perguntei ao meu pai e ele disse-me. As pessoas mortas que estão no céu é que devem passar o tempo a ver essas coisas das nuvens. Quando estão nuvens eu percebo onde é que as pessoas se seguram e põem os pés, porque podem pôr-se em cima das nuvens e nós não as vemos porque estamos a olhar assim um bocadinho de baixo e elas estão do outro lado, mas quando está céu azul não percebo muito bem, a não ser que estejam atrás de um pano azul ou então que fiquem invisíveis com super-poderes. Uma coisa que eu gosto na vila é a papelaria onde o meu pai compra os jornais porque lá há muitos livros de quadradinhos e às vezes o meu pai dá-me dois de uma vez. Na vila há um rio e uma ponte e uma rua cheia de árvores. E agora há umas casas novas que são feias, pelo menos é o que a minha mãe acha porque elas têm umas cores assim nada sérias. Passamos sempre por elas quando saímos da vila de volta para nossa casa, quer dizer para casa dos meus avós. Quando fica noite eu não tenho medo nem nada.

De noite tudo é mais esquisito. Um dia acordei de noite e o quarto estava todo inclinado e eu era uma espécie de homem invisível. Levantei-me da cama e abri a porta sem os meus pais acordarem, mas também mesmo que acordassem não me viam porque eu estava todo transparente e invisível. Fui pelo corredor muito devagarinho. No corredor havia uma escuridão e não se via nada. Eu sabia que a casa-de-banho era no fundo à esquerda mas de repente tudo estava diferente e agora eu já estava um bocado sem saber o caminho e o pior é que também já não sabia voltar para trás para acordar a minha mãe. Parei e então apareceram as moscas que costumam estar no vidro da janela da cozinha. Vinham sem fazer aquele barulho que normalmente fazem e eram maiores, do tamanho de passarinhos pequenos, e estavam muito chateadas e começaram a ir contra a minha cara. Como eu estava invisível, elas não me deviam ver e então chocavam contra a minha cara e as asas esquisitas delas faziam-me impressão no nariz e nas pestanas e na boca. Estava tudo escuro e eu não conseguia sair dali. E depois as moscas fizeram um buraco na minha cara e começaram a passar muitas,muitas, muitas. O buraco ainda era mais escuro do que o resto e elas voavam muito rápido com as asas a bater sem parar. E eu estava quase a chorar porque o buraco fazia-me nojo e as moscas doíam. E então chorei e a minha mãe veio a correr e disse-me que não era nada, que já tinha passado. Disse assim: pronto, Filipe, já passou, já passou. E a minha mãe tinha razão porque nessa altura eu pus a mão na cara e já não estava lá o buraco.

A seguir de manhã já não havia problemas mas eu também já não estava invisível e por isso a minha avó viu-me quando eu fui à gaveta dos chocolates e disse-me que agora mais chocolates não porque senão eu não comia nada ao almoço. Na casa dos meus avós os almoços são coisas muito importantes. Há guardanapos a sério que não são de papel nem nada e talheres pesados. Todas as pessoas se sentam à mesma hora e o meu avô conta histórias engraçadas e toda a gente se ri e isso é muito positivo, como eu costumo dizer. Nos almoços em casa dos meus avós há sempre sopa e de sobremesa eu às vezes como uma banana à macaco, que é o que nós chamamos a uma banana inteirinha com a casca descascada à mão para baixo. Uma coisa que eu gosto de fazer a seguir ao almoço é corridas de carrinhos. Os crescidos normalmente ficam muito tempo sentados a falar e a tomar café e eu então vou buscar os meus carrinhos e faço corridas no tapete. Só faço corridas com quatro, que são o porche-prateado, o roles-róice, o mini-cuper e o jipe-descapotável. O meu preferido é o porche-prateado e é ele que ganha quase sempre ou mesmo sempre. Mas às vezes é por pouco. O mini-cuper também é bom. Eu achava que era só um mini mas o meu pai é que me disse que era um mini-cuper e que ele até tinha tido um antes de eu nascer e que era um carro bom e eu aprendi isso. As corridas são no tapete entre duas riscas grossas que há a toda a volta e que fazem uma espécie de estrada ou pista. As curvas é que são difíceis como tudo. E as regras são que se um carro sai fora das riscas grossas volta para onde estava e se bate noutro fica atrás dele um palmo esticado do dedo mindinho até ao dedo polegar. Às vezes os carros vão e batem nos pés das pessoas crescidas e nessa altura repete-se. Uma vez o mini-cuper passou por dentro do sapato da minha tia, por dentro quer dizer entre o salto alto e o resto do sapato, como se fosse um túnel ou uma porta ou assim. O porche-prateado ganha porque é melhor nas curvas que são muito complicadas porque viram muito e é difícil os carros não saírem para fora das riscas lá. Quando um carro sai do tapete para o chão de madeira faz um barulho e nessa altura as pessoas dão conta que eu estou ali a brincar. Dizem assim: lá está ele com os carros. Ou então: quem é que está a ganhar, Filipe? E eu digo, e pronto. Um dia os meus tios não estavam lá e os meus avós também saíram para ir não sei onde e a minha mãe e o meu pai zangaram-se e eu fiquei espantado porque eles estavam a falar alto e com força, mas depois o meu pai disse olha o miúdo e os dois calaram-se. Mas no dia seguinte já estavam amigos e eu fiquei contente. Até fui com o meu pai lá para fora para ele me ensinar a andar de bicicleta e foi muito divertido e passámos pela mata mas não foi dessa vez que ele me ensinou o que eram eucaliptos, isso foi há mais tempo. Mas no muro de pedra que há no caminho para lá vimos um lagarto e o meu pai disse que aquele era dos grandes e quando voltámos para casa eu contei à minha mãe e depois fiz desenhos de lagartos muito grandes mas inventei os olhos porque não me lembrava como é que eram os olhos de verdade dele mas também não fez mal. Quando está bem disposto o meu avô diz: sonhar é bom. Mas em vez de dizer bom diz bão: sonhar é bão, sonhar é bão. E diz aquilo muitas vezes e a minha avó gosta. Outra coisa que a minha avó gosta é de estar ao pé da lareira assim a aquecer-se sentada e sem fazer nada. Eu também gosto mas não aguento tanto tempo como ela. Começo a olhar para o fogo e é bom mas depois doem-me os olhos e fico com uma espécie de comichão mesmo no olho onde está a pintinha preta e a bolinha da cor e lá não se pode coçar. Uma vez deitei um boneco que se tinha partido para a lareira e a minha tia disse que aquilo não se fazia porque era plástico e o plástico não se podia deitar no fogo porque cheirava mal e eu não fiz mais aquilo mas na altura gostei de ver o boneco com um braço a arder separado dele e ele a mexer-se sozinho pela primeira vez antes de desaparecer todo puxado para o meio. Depois é triste é quando vamos embora. Temos de arrumar tudo e pôr as malas no carro e os meus avós ficam com água nos olhos no tal sítio das pintas e das cores onde não se pode coçar. Este ano foi bom porque eu adormeci e a viagem foi mais rápida que sei lá o quê. E mesmo quando acordei foi como se ainda estivesse a dormir porque de repente estava tudo muito noite e nós estávamos a passar ao pé de uma coisa muito grande que parecia uma nave espacial poisada ali como um passarinho cheiinho de luzes brancas bonitas e o meu pai disse-me que era uma fábrica mas eu acho que ele se enganou, a não ser que fosse uma fábrica de super-heróis, e depois foi bom chegar e estar na minha cama a dormir. Normalmente as pessoas dizem que dormem de olhos fechados mas eu durmo de olhos abertos, senão como é que vejo tantas coisas? Agora já acordei e estou aqui sentado a escrever esta redacção sobre as férias. As minhas férias foram assim.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

João Villaret - Recado a Lisboa
 


Resultado de imagem para a senhora da graça
 
SENHORA DA GRAÇA


Era uma vez um homem que era casado com uma mulher, muito amiga de vinho, a

ponto de não deixar parar vinho na adega. Um dia o homem saiu para comprar uns bois e

recomendou à mulher que não fosse à adega beber o vinho. Apenas o homem virou costas, a

mulher chamou logo uma comadre e foram ambas para a adega beber o melhor pipo de vinho

que encontraram. O homem, quando voltou para casa e se achou sem o vinho, queria bater na

mulher; mas ela disse-lhe que não lhe batesse, pois estava inocente, quem tinha bebido o vinho

tinha sido a gata. Como o homem não quisesse acreditar, a mulher disse-lhe: «Pois olha,

homem, havemos de ir à Senhora da Graça, e havemos de perguntar-lhe quem foi que bebeu o

vinho, se fui eu ou a gata; se a Senhora disser que fui eu, hei de trazer-te às costas para casa, e

se eu estiver inocente hás-de tu trazer-me a mim.

Partiu o homem mais a mulher para a Senhora da Graça, e tendo chegado a um sítio

onde havia um eco, a mulher disse ao homem: «Olha, escusamos de ir mais longe; Nossa

Senhora também aqui nos ouve.» O homem então gritou com toda a força:

«Dizei-me, Senhora da Graça, quem bebeu o vinho, foi a mulher ou foi a gata?» E o eco

respondeu: «A gata».

Três vezes o homem perguntou o mesmo, e três vezes o eco lhe respondeu a gata.

O homem então, convencido de que a mulher estava inocente, levou-a às costas para casa e

matou a gata para ela não lhe ir beber mais o vinho.
(Coimbra)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

As amendoeiras em cada Primavera cobrem de branco e rosa Portugal, lembrando a neve dos Países do Norte, tal como descrito no conto popular Português “A Lenda das Amendoeiras em Flor”.
A lenda das amendoeiras é um conto popular muito antigo atribuído a muitas regiões do mundo tendo as suas origens mais remotas na Pérsia, Turquia e no Próximo Oriente.
Em Espanha a lenda foi atribuída às cidades de Córdova e de Sevilha, mas tudo indica que os amores de lbne-Almundim e Gilda se referem a Silves, Algarve, em Portugal.
As amendoeiras são um dos símbolos da região do Algarve, sul de Portugal e de outras regiões de Norte e a Sul (Terra Quente e Alto Douro), onde há importantes festividades anuais relacionadas com as “Amendoeiras em Flor” e esta árvore de fruto está associada à memória e à tradição cultural das terras e das gentes.
Serve de tema para livros, peças de teatro, desenhos animados, trabalhos de escolas, poemas e filmes.
Este é um filme de ficção, baseado nos acontecimentos descritos na lenda.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015


 

 
O Homem Trocado
O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo. 

- Eu estava com medo desta operação... 

- Por quê? Não havia risco nenhum. 

- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos... 
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos.

Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês. 

- E o meu nome? Outro engano. 

- Seu nome não é Lírio? 

- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...

 Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista. 

- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$1 3 mil. 

- O senhor não faz chamadas interurbanas? 

- Eu não tenho telefone! 

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes. 

- Por quê? 

- Ela me enganava. 

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: 

- O senhor está desenganado. 

- Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite. 

- Se você diz que a operação foi bem... 

A enfermeira parou de sorrir. 

- Apendicite? - perguntou, hesitante. 

- É. A operação era para tirar o apêndice. 

- Não era para trocar de sexo?

 

 

Luís Fernando Veríssimo

 

1 Símbolo da unidade do sistema monetário do Brasil (Real)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sinceridade

Procura ser sempre sincero
contigo e com os outros.

 Aquele que tem
por hábito mentir
acabará sozinho.
 
O caminho para a verdade
A chuva que caía há dias parou finalmente nessa tarde. Um suspiro de alívio percorreu a turma toda. Os rapazes sabiam agora que o jogo de futebol, há tanto ansiosamente esperado, poderia ter lugar e já não seria cancelado por causa do mau tempo.
— Bom, às três horas no campo de jogos, mas em ponto! — diz Matias para Ricardo, ao irem juntos para casa no fim das aulas.
Ricardo abana a cabeça e murmura algo de incompreensível de cada vez que Matias dá pontapés nas pedras do caminho para ensaiar golos. Tenta acertar num tronco, numa pedra, ou até numa determinada folha de um ramo. Ricardo já não suporta esta mania. É que Matias tem tudo menos boa pontaria.
As suas brincadeiras com as pedras já tinham causado aborrecimentos que chegassem. Matias achava que era precisamente por isso que devia treinar mais. Como se dar pontapés a pedras fosse de uma importância vital!
Ainda Ricardo não tinha acabado de pensar e já se ouvia o barulho de vidros partidos: a última pedra de Matias tinha voado direitinho à janela da entrada do Sr. Gilberto. Ricardo ficou a olhá-la petrificado.
— O melhor agora é fugir! — ouviu Matias sibilar. E, com um grande salto, o autor da asneira desapareceu a correr pela rua abaixo.
Ricardo ainda estava a olhá-lo, confuso, quando sentiu que alguém o agarrava pela gola e o puxava com força. À sua frente, furioso e ofegante, estava o senhor Gilberto.
— Até que enfim que te apanhei, rapazinho! Espera lá, que te vou levar já ao teu pai, e vais ver o que te vai acontecer!
Às três horas em ponto, Matias apareceu no campo de jogos mas, por mais que procurasse Ricardo, não o encontrou.
“Afinal sempre o apanharam”, pensou Matias “e, ou assumiu ele a culpa, ou não o deixaram falar. Já é costume. O pai dele, às vezes, é muito severo.”
Matias ficou de pé, na tribuna, a olhar para o campo vazio. Combinavam quase sempre encontrar-se uma hora antes, para arranjarem um bom lugar. Mas, de um momento para o outro, Matias perdeu o entusiasmo pelo jogo. Pensava no vidro da janela, em Ricardo, e a má consciência atormentava-o. Devagar e de cabeça baixa, abandonou o campo e encaminhou-se, hesitante, para a casa dos pais de Ricardo.
Foi o pai em pessoa que lhe abriu a porta. Irado como estava, nem sequer deixou Matias falar, dizendo-lhe asperamente:
— É inútil, rapaz! O Ricardo está fechado no quarto, de castigo, a fazer os trabalhos de casa… Ele que te conte tudo na segunda-feira, na escola. Já só faltam dois dias e meio — e voltou para dentro, fechando a porta com força.
Matias voltou a tocar à campainha insistentemente e, desesperado, acabou por bater à porta com os punhos. Não podia aceitar uma injustiça daquelas. Mas ninguém se mexeu dentro de casa.
Os pensamentos atropelavam-se-lhe na cabeça.
“Muito bem”, pensava ele, “então vou contar-lhe a verdade pelo telefone. E se ele também não me deixa falar pelo telefone?”
De repente, Matias tem uma ideia e volta a correr para casa. A mãe ainda não tinha regressado do trabalho. Procurou papel de carta e um envelope, escreveu a toda a pressa umas linhas no papel e levou a carta à estação dos correios mais próxima. Mostrou ao empregado o dinheiro que lhe sobrava da semanada e perguntou:
— Chega para mandar uma carta por correio-expresso para a cidade?
— Chega e sobra, rapaz.
— E a carta é entregue agora mesmo?
O empregado olhou-o sorrindo e respondeu:
— Há fogo? Não tenhas medo, que estás com sorte. A carta pode chegar ao destino em meia-hora. Ex-cepcio-nal-mente!
Matias entregou a carta, feliz.
Uma meia hora mais tarde, o pai de Ricardo abria uma carta, entregue por um estafeta motorizado. E, admirado, leu:
Caro Sr. Pinto,
Venho, por este meio, provar-lhe que a verdade afinal consegue entrar em sua casa. Fui eu que parti o vidro da janela e vou pagá-lo com a minha próxima semanada.
Espero pela resposta em frente à sua casa.
Com os meus cumprimentos
Matias
A resposta que o pai de Ricardo mandou a Matias pesava quase 40 kg e vinha a rir-se. O pai tinha mandado o Ricardo. Assim que viu o amigo sentado à espera na soleira da porta, disse:
— Matias, tu és o maior maluco do mundo! O que tu fizeste… bem, nunca hei-de esquecer.
— Ora — resmungou Matias — não fales tanto, senão ainda perdemos também a segunda parte do jogo.
Eva Rechlin
Jutta Modler (org)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação